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Ana Pincolini

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Por Ana Pincolini

Escrita e identidade: ainda sobre estar aqui “colunando” com você


No fim das contas, a minha vida foi passando e um dia (faz pouco tempo, foi em meados de março de 2026) percebi que meu principal trabalho é escrever. Se você me acompanha nas redes sociais, já deve ter ouvido que, antes de fincar o pé e me definir por ser psicóloga, eu transitei pela medicina e pelo jornalismo. Eu transitei no paralelo por outros interesses também: fiz teatro, estudei um ano no curso extraordinário de música da UFSM e cursei um técnico em segurança do trabalho – contudo, esses são outros capítulos, outras facetas de quem sempre se interessou por muita coisa.

Mas sabem qual o elo que nunca se rompeu?

Nunca deixei de ser uma pessoa que escreve.

Quando eu tinha oito anos, fiz um livrinho na escola, chamado Criança escritora. Até devo ter ele impresso guardado por aí, pois sou bem acumuladorazinha: procurando, tenho certeza de que o encontro. Mais ou menos na mesma época, eu fiz uma história ilustrada sobre a imigração italiana – acho que se chamava A vida de Lini – nada a ver o nome da personagem com a imigração, mas eu tinha uns nove anos, então merece um desconto. O texto foi publicado no jornal da minha cidade, Silveira Martins, no interior do RS. Silveira é uma pequena cidade de colonização italiana, capital da chamada Quarta Colônia, hoje com pouco mais de dois mil habitantes. A região é muito parecida com a Serra Gaúcha, onde moro atualmente (desde 2008).

Depois do livrinho “Criança escritora” e da história sobre imigração italiana no jornal da cidade, minhas incursões literárias continuaram. Tanto que foi a literatura — se é que dá para chamar assim – que me possibilitou conhecer Porto Alegre, lá pelos meus 12 ou 13 anos. A minha primeira vez na capital do meu estado foi para ir à Usina do Gasômetro – um centro cultural bem conhecido, na beira do Guaíba–receber uma menção honrosa em um concurso de literatura. Eu não fui premiada, mas receber a menção honrosa significava que meu texto ficou entre os finalistas – e isso já foi muito emocionante para mim.

Ao contrário do “Criança escritora” e de “A vida de Lini”, que eram textos do gênero narrativo, agora eu me aventurava na poesia – o feito da menção honrosa foi com o poema “A caminho da roça”, que contava a história de uma criança rural indo trabalhar (por que será?).

Anos depois, quando li o poema “Meninos carvoeiros”, do Manuel Bandeira, associei imediatamente ao meu “A caminho da roça”, pois me causou os mesmos sentimentos. Eu não conhecia o poema do Bandeira, mas é incrível como as percepções são parecidas – e o mesmo acontece com “Jogo noturno”, do Mauro Mota.

Longe de mim estar me comparando aos citados poetas, não tenho esse nível de pretensão literária… apenas fica o registro de que o sentimento causado em mim ao ler esses poemas fechava com o que eu senti ao escrever o meu.

Depois você lê os poemas (estão ao final do texto) e veja o que lhe desperta. Quanto ao meu “A caminho da roça”, esse eu terei que procurar muito para encontrar, pois não tenho ideia de onde encontrá-lo. Ele é de um tempo em que se escrevia à mão mesmo, do jeito antigo, papel e caneta, em algum lugar estarão, repousando, as suas folhas amareladas.

Mas, retomando a história: conheci a capital do meu estado por causa de um poema. Até hoje acho isso tão bonito. E, para completar bem o contexto, conheci a capital do meu estado por causa de um poema sobre trabalho infantil, sobre uma criança rural – o que eu era na época.

Além desse meu “percurso literário”, minha infância rural também teve um percurso jornalístico: sim, eu brincava de ser médica e de ser professora. Mas brincava muito mais de ser jornalista. Sobre ser professora, eu conto outro dia, assim como as curiosas atividades do meu laboratório de anatomia – não se preocupem, eu não saía matando bicho por aí – embora realizasse algumas observações de ossos, o famoso experimento do osso de galinha na coca cola e experiências com fios de cabelo.

Minha veia biológica se expressava também por meio de passeios com a minha irmã para ver “insetos coleópteros” e observar “partes da flor e do fruto” – o gineceu, o androceu e todas aquelas coisas que ilustram o lindo livro de biologia “Os seres vivos”, do Carlos Barros (você não lembra?)

Mas, para o texto de hoje, importam mais as minhas atividades jornalísticas, intensamente realizadas entrevistando minha mãe sempre que ela fazia bolos. Era ela terminar de usar a batedeira e eu já estava a postos para pegar os batedores cheios de glacê – que a gente aqui no RS chama de merengue – e, depois de devidamente lamber tudo, um deles virava microfone e eu me dirigia à frente da nossa casa.

Lá, com a fachada às minhas costas, batedor – digo, microfone – em punho, eu imaginava um Câmera Man me gravando e caprichava na chamada ao vivo, na grande reportagem, sempre com Breaking News direto do “Centro de Comidas Gostosas” – o CCG.

[Nota do editor: ela já gostava de siglas]

 

O roteiro não variava muito: falando sozinha – para milhares de espectadores imaginários – eu fazia uma chamada do tipo “estamos aqui, no Centro de Comidas Gostosas – o CCG –  para conhecer um pouco sobre o bolo tal, que está sendo fabricado”. Aí eu saía da frente da casa, voltava para a cozinha e ia prontamente entrevistar minha mãe:

Dona Izelda, fale sobre o bolo tal” [costumava ser uma entrevista longa e extenuante para a entrevistada, tanto que invariavelmente terminava quando minha mãe perdia a paciência e tratava de  me enxotar da cozinha, porque sim, ela ainda estava lá, tentando terminar de fazer o bolo, enquanto eu ficava interrogando sobre o passo a passo com o batedor/ microfone]. Quando, finalmente, o bolo repousava no forno, eu fazia a chamada final, novamente direto da fachada principal do CCG. Temos um bolo a caminho.

[Hoje vejo que faltou uma coisa meio Ana Maria Braga… certamente provar o bolo daria boas reportagens…, mas não tive essa presença de espírito na época, infelizmente, não explorei todo o potencial jornalístico dos fatos …]

Alguns anos depois, na sétima série, comecei a participar do jornalzinho do colégio Bom Conselho – o Linha Etc. – durante todo o período em que ele existiu. O jornal tinha esse nome porque cidades de imigração italiana costumam ser divididas em linhas – Linha um, Linha dois, Linha três… ao sul e ao norte. Por exemplo, eu morava no distrito da Linha Seis Sul. Uma das minhas melhores amigas da escola, na Linha Seis Norte. Quando criamos o nome do jornal, pensamos que Silveira era uma cidade com várias “linhas” – aí escolhemos Linha etc.

Foi por causa do Linha Etc. – que envolvia um projeto de extensão da faculdade de jornalismo da UFSM – fui à universidade uma vez numa apresentação oral de trabalho. O coordenador do jornal era estudante da UFSM e levou nossa pequena equipe para a universidade em uma semana acadêmica de comunicação social. Foi naquele evento que me deram o microfone na mão e posso dizer que – tal como acontecia quando eu pegava o batedor de bolo – dei minha primeira palestra. Assim: no improviso, sem preparar nada. E foi aí eu vi que gostava da coisa.

Ah, faltou registrar que eu exercia o jornalismo também na Kombi escolar – eu era uma espécie de Galvão Bueno do percurso entre a cidade (onde ficava o colégio Bom Conselho) e a zona rural (onde eu morava). Meu pseudônimo era Cleidy da Silva, uma repórter que narrava todo o trajeto e entrevistava todo mundo que estava na Kombi. Hoje vejo como devia ser chato para todo mundo, porém as pessoas pareciam se divertir. Tanto que, um dia em que eu estava meio borocoxô, até o motorista  da Kombi – um senhor que não era de falar muito – perguntou: “Cadê a repórter Cleidy da Silva? Não veio hoje?”

Como se pode ver, a veia – e, junto com ela, a artéria e o nervo [rsrs], formando todo o feixe vásculo-nervoso jornalístico sempre me acompanhou – a ponto de, em 2002, eu ingressar no curso de comunicação social da UFSM. Foram quase quatro anos, que cursei paralelos à psicologia, do jeito que dava.

Quando me formei em psico, a possibilidade do primeiro emprego impediu que eu concluísse o jornalismo. Mas muito do que aprendi lá ainda me acompanha, não é à toa que criei o SUAS Conversas – primeiro como blog, em 2016, e, depois, como canal do Youtube, em 2020.

A mesma coisa acontece com o que aprendi no breve rasante pelo mundo de Hipócrates. Do jornalismo, ficou o amor pelo radiojornalismo e conceitos de jornalismo impresso, digital e telejornalismo. Da medicina, embora nunca tenha feito diferença na minha vida saber da existência do tronco ileobicecoapendiculocólico [sim, isso existe, e você tem um no seu corpo!], tudo o que aprendi sobre ética eu uso – e muito – até hoje. Um dia podemos falar sobre isso também.

Mas a psicologia?

A psicologia, na minha vida, representou uma tentativa de fazer uma síntese entre tantos interesses variados. Na psicologia, eu me formei, fiz mestrado e completei 20 anos de carreira em 2024. Nesses 20 anos, percorri um caminho diferente da maior parte dos colegas psicólogos. Longe do consultório, a vida me tornou psicóloga social, trabalhando no SUAS. Assim eu me defino: sou uma psicóloga social.

Mas o que eu queria te contar hoje – e escrevi sobre tudo isso porque é um insight novinho que tive – mais precisamente no dia 28 de março de 2026, segundo anotei no meu “caderninho de ideias”- é que me dei conta que o elo entre todas as minhas épocas, todas as minhas buscas profissionais, desde a infância até hoje, não foi a psicologia – mas o ato de escrever e de repassar informações – reportar, escrever, compartilhar.

A escrita nunca me abandonou – e eu não consigo abandoná-la. Escrever é algo que nunca parei de fazer – até porque é o ato que está por trás de quase tudo que faço. Os roteiros do Youtube, os roteiros do Instagram, as legendas de posts, os livros que publiquei, as palestras que dou: tudo começa com um momento escrito, como esse exato momento.

O meu marido – que, por acaso, é designer gráfico, videomaker e editor de vídeos – sempre me diz que tenho que ser daquele tipo “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. “Liga a câmera, pendura o microfone na lapela e vai falando”, ele me diz. “Assim, tu vai conseguir produzir mais”. De fato, sem roteiro, leva menos tempo. Mas eu nunca gostei de fazer sem o raio do roteiro: pelo menos um roteirinho para me guiar, vá lá.

E aí é que veio o meu insight: eu não preciso obrigatoriamente de roteiro para gravar – mas eu gosto de escrever o raio do roteiro. Se eu não escrever, perde a graça. Porque para mim tudo passa pela escrita. E aí eu demoro mais, com certeza. Mas de que adianta a “produtividade” sem o prazer do processo?

A escrita faz parte dos meus processos.

Mesmo como servidora pública, muitas das minhas realizações como psicóloga passaram pela escrita – nesse caso, uma escrita coletiva: eu me orgulho do meu nome estar na redação final do Plano de atuação da psicologia na Fundação de Assistência Social (FAS), documento bem antiguinho, que fizemos lá nos primórdios do Suas aqui em Caxias do Sul, sem diagramação nem capa bonita, mas com o conteúdo que precisávamos naquele momento.

Também me orgulho do meu nome constar na redação do primeiro e do segundo Protocolo de gestão dos Cras de Caxias do Sul (2012 e 2024, respectivamente), do primeiro e do segundo Plano Municipal de Atendimento Socioeducativo de Caxias do Sul (2014 e 2026, respectivamente), do Protocolo de gestão do Creas de Caxias do Sul (2020), do nosso Diagnóstico Socioterritorial (2024) e dos dois boletins de vigilância socioassistencial chamados A FAS em números (2021 e 2025).

Ah, meu nome também está em quatro cartilhas que elaboramos: sobre o Creas, o Trabalho Infantil, o Programa de Guarda Subsidiada (PGS) e a Lei da Escuta Protegida, produções realizadas entre os anos de 2016 e 2024.

Isso fora as notas técnicas enquanto estive na Diretoria de Gestão do Suas (DGSuas) da FAS. Então, realmente, enquanto servidora da assistência social, em 17 anos de atuação, eu escrevi bastante, junto com meus colegas, claro, mas sempre estive envolvida em processos de produção escrita.

Recentemente, tive a honra de escrever o prefácio para um livro de colegas do Suas, sobre um tema que amo: o trabalho com grupos. Esse foi um convite lindo, cheio de significado – ser convidada para escrever um prefácio, para amadrinhar um livro, veja só. E foi justamente quando eu estava às voltas com a escrita do prefácio e preparando uns roteiros para o Youtube que refleti sobre o importante papel da escrita na minha vida.

Aí decidi que eu precisava de mais esse espaço: a coluna que sempre quis ter (eu mesma cortei o pau, eu mesma fiz a gamela…). Optei por não ressuscitar o Blog Suas Conversas, como antigamente, pois lá eu tinha um compromisso de escrever toda a semana. Mas, embora tudo que eu faça nas redes sociais passe de alguma forma pela escrita – o vídeo que você vê no Youtube, a legenda no post do Instagram, a palestra que eu dou – e a escrita atravesse meu trabalho como servidora, estava faltando escrita nesse site – faltava um espaço para que eu pudesse escrever.

Para isso, estamos aqui.

E, livremente, enquanto colunista ocasional, você me verá passando por aqui de vez em quando e deixando umas linhas. Era isso: nos lemos na próxima escrita!

 

PS.: Deixo abaixo os poemas que mencionei e o link de acesso às publicações técnicas oficiais do município de Caxias do Sul, muitas das quais tive a honra de fazer parte da escrita, como você verá.

 

Meninos Carvoeiros

Manuel Bandeira

Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade.
— Eh, carvoero!
E vão tocando os animais com um relho enorme.

Os burros são magrinhos e velhos.
Cada um leva seis sacos de carvão de lenha.
A aniagem é toda remendada.
Os carvões caem.
(Pela boca da noite vem uma velhinha que os recolhe, dobrando-se com um gemido.)

— Eh, carvoero!
Só mesmo estas crianças raquíticas
Vão bem com estes burrinhos descadeirados.
A madrugada ingênua parece feita para eles…
Pequenina, ingênua miséria!
Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis!
— Eh, carvoero!

Quando voltam, vêm mordendo num pão encarvoado,
Encarapitados nas alimárias,
Apostando corrida,
Dançando, bamboleando nas cangalhas como espantalhos desamparados.

(Petrópolis, 1921)

[O ritmo dissoluto, 1924]

 

Jogo noturno

“Ilumina-se o campo

para o futebol na aldeia.

Aparece a lua branca,

Feita de algodão e meia.

Meninos poetas jogam

com a bola da lua cheia.”

(Mauro Mota)

[Antologia em verso e prosa, 1982]

 

Publicações oficiais da FAS – Caxias do Sul (RS)

LINK: https://fas.caxias.rs.gov.br/?page_id=1916

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