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Ana Pincolini

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Por Ana Pincolini

Escrita, identidade e inteligência artificial (IA)


Esse não é um texto sobre como eu penso que as pessoas devem usar a IA na escrita – já vou avisando. É exclusivamente sobre a minha relação com a escrita e sobre o fato de que a IA não tem espaço nessa relação.

A minha relação com a escrita é monogâmica: não tolero terceiros. Eu sou daquelas que têm cadernos de tecido artesanais, que carregam um bloquinho de anotar ideias na bolsa, para capturá-las quando elas irrompem inconvenientemente no meio do dia. Meu computador nem é tão velho e já tem as teclas A S D M N L C O totalmente desbotadas. A barra de espaço,  caps look e shift irreconhecíveis. Isso diz algo de mim.

Sim, sou meio refratária à IA. Mas sim, ela existe, eu sei – e está aí pra quem quiser usar em tantos outros campos, inclusive na escrita.  Ontem eu vi um anúncio no Instagram que dizia “use a IA para melhorar a sua escrita”.

Então eu realmente acho que isso ajuda muitas pessoas, que isso é realmente importante. Mas eu prefiro escolher as minhas palavras, mesmo que não sejam as melhores, que não sejam as que vendem, que não sejam as que viralizam, que contenham alguns errinhos aqui e ali. É por isso eu precisava dessa coluna.

Uma coluna sobre meu trabalho no Suas, mas sobre outras coisas também. Opinativa, autêntica, sem muito design, sem IA. Com inspiração, com palavras escritas por uma pessoa de carne, osso e óculos multifocal. Com um computador de teclas cansadas que já desbotaram.

Com os primeiros textos, tão pessoais, que são pra não deixar dúvida que falam de mim. Não é a primeira vez que falo disso, até porque esse aprendizado me acompanha na vida: quando eu estava no Ensino Médio, em uma aula de literatura brasileira, o professor falava das necessidades do artista. Embora eu não tenha essa pretensão, aquela frase me capturaria para sempre. Eu retorno imaginariamente a Silveira Martins em uma manhã qualquer de 1995, quando escutei isso do professor Medina. Um tempo em que tínhamos literatura brasileira e que tínhamos que ler A carta de Caminha, Marília de Dirceu e os poemas satíricos do Boca do Inferno.

Naquele ano, a aula de introdução da disciplina de literatura brasileira era sobre as necessidades do escritor. A primeira necessidade de quem escreve é a de se expressar. O escritor pode até almejar o sucesso literário – ou quem sabe o sucesso popular, que frequentemente não anda junto ao primeiro, haja vista que muitos dos grandes escritores morreram na miséria. Mas, antes de almejar o sucesso, antes de almejar que o leiam, a sua necessidade é a de escrever, necessidade de se expressar.

Mesmo não me considerando uma artista da escrita – uma óbvia prepotência para quem, até aqui, só publicou livros técnicos – eu também sinto essa necessidade. Escrever para mim não é um trabalho, mas algo como um ar que respiro.

É por isso que, nas poucas vezes que até tentei, sei lá se por curiosidade ou para não sentir que estou envelhecendo rápido demais, pedir para IA “dar uma olhada no meu texto”, ela não me ajudou. Na verdade, ela me irritou, uma chatilda intrometida querendo colocar palavras na minha boca – digo, nas minhas teclas.

Acabou com o que tinha de meu, apropriou-se dos meus direitos autorais, ainda que escolhendo palavras melhores. Não, obrigada, não quero um algoritmo com a pretensão de traduzir as minhas ideias, mesmo que a pretexto de “melhorar minha escrita”.

Se for um editor, um prefaciador ou uma pessoa real contratada para fazer uma leitura crítica indicando ajustes para um livro meu, sim, fiquem à vontade para melhorar minha escrita. Mas um programa de computador não tem essa licença. Prefiro ficar com alguns erros e manter o meu DNA, já que minha escrita denuncia quem eu sou, o que penso e como vejo o mundo.

Escrita é mistura de ciência, arte e artesanato. No meu caso, que é uma escrita técnica, vamos tirar a arte e dizer que é ciência + artesanato. E artesanato é manual –  literalmente “feito à mão”, ainda que no computador – vide o meu e suas teclas desbotadas. Como todo artesanato, escrever carrega o risco da imperfeição. Mas são as pequenas imperfeições – misturadas à perfeição possível para quem é humano – que ficam os traços de quem teceu os fios, de quem pintou a tela, de quem escolheu as palavras e as convidou para aquele texto. Escrever é divertido: é descoberta, é prazer, é a busca das palavras que estão lá, esperando para virar escrita. Aliás, quem disse isso, com palavras mais belas que as minhas, foi um homem de carne, osso (e óculos), que viveu o seu tempo e foi o maior poeta que tivemos. Em “A procura da poesia”, Carlos Drummond de Andrade disse:

“[…] Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
[…]

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?”

É exatamente isso que eu quero: espreitar as palavras ‘em estado de dicionário’ e ir escolhendo uma a uma, batendo teclas desgastadas para que se realizem e se consumem os textos, os roteiros, os livros que esperam para serem escritos.

E eu quero carregar a chave.

[E não me venha a chatilda da IA querer cortar o meu barato].

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